“Umbandas: Uma História do Brasil”, do historiador Luiz Antônio Simas, não é um manual teológico nem um estudo sistemático sobre fundamentos religiosos. Tampouco se propõe a definir a Umbanda, descrever rituais ou ensinar práticas religiosas. O livro também não segue uma narrativa histórica linear ou detalhada dos ritos mencionados. Sua proposta é outra: compreender as umbandas como expressões vivas da cultura brasileira.
O autor deixa claro que não escreve a partir do lugar de um umbandista, e justamente por isso evita qualquer pretensão doutrinária ou de sistematização das práticas dos terreiros. Ainda assim, o olhar de Simas é atravessado por sua vivência como carioca, profundamente conectado às manifestações culturais populares, o que confere ao texto sensibilidade, identidade e proximidade com o tema.
Um ponto positivo da obra é o cuidado com as referências, apresentadas ao final de cada capítulo, além de materiais complementares ao final do livro. Neles, o autor traz breves explicações sobre orixás da Umbanda e do Candomblé, bem como sugestões de músicas com temáticas afro-religiosas, ampliando a experiência do leitor para além da leitura.
Ao longo da obra, conhecemos os primeiros registros sonoros do termo “umbanda”, a origem dos patuás e a distinção entre eles e os amuletos, além das raízes de rituais que permeiam o cotidiano brasileiro, como as celebrações de Ano-Novo e o Carnaval. Simas também percorre temas como o samba, a chamada “Umbanda branca”, o Espiritismo e, de forma necessária, os preconceitos e o racismo historicamente associados às religiões de matriz africana.
Mais do que falar apenas sobre religião, o livro evidencia que, independentemente de praticarmos ou não seus ritos, ou de cultuarmos ou não suas entidades, todos nós, enquanto brasileiros, somos atravessados pela história plural e rica das umbandas.
No geral, trata-se de uma leitura curiosa, interessante, envolvente e rica em detalhes e fatos, na qual o autor percorre diferentes caminhos da história e da cultura brasileira para mostrar como a Umbanda está profundamente enraizada na formação do Brasil..
• SPOILERS | Quotes, Notes & Highlights •
"Na interação entre o visível e o invisível, busca-se o equilíbrio entre o humano e a natureza, o vivo e o morto, aquilo que se toca e aquilo que se intui, o sagrado e o profano. Entre esses aspectos não existe dicotomia, mas interação."
"Entender umbanda como síntese do Brasil percorre o perigoso caminho de apagar as dinâmicas de suas práticas, reelaborações, contradições, tensionamentos, pluralidades e soluções criativas de mundo. Ao mesmo tempo, esbarra na crença de que é possível sintetizar o Brasil de alguma maneira fechada e conclusiva, desconsiderando a complexidade da formação do Estado-Nação brasileiro e da profunda dificuldade de se pensar alguma identidade fixa e unívoca para um processo histórico marcado pela extrema violência da colonialidade contra corpos e saberes não brancos."
"Para as diversas encantarias, a morte não é uma razão que impeça alguém de continuar dançando."
"Somos um país forjado em ferro, pelourinhos, senzalas, terras concentradas, aldeias mortas pelo poder da grana, tambores silenciados, arrogância dos bacharéis, inclemência dos inquisidores, truculência das oligarquias, chicote dos capatazes, cultura do estupro, naturalização de linchamentos e coisas do gênero: um Brasil boçal, muitas vezes institucional, bem-sucedido como projeto de aniquilação."
"Não custa lembrar que o racismo herdado do colonialismo se manifesta explicitamente pelo viés das características físicas, mas não apenas assim. A discriminação também se estabelece pela desqualificação de crenças, danças, visões de mundo, formas de celebrar a vida, de enterrar os mortos, de educar as crianças e assim por diante."
"Na perspectiva deste livro, macumba é instrumento e pode ser diversas outras coisas, mas designa também e sobretudo um conjunto de rituais religiosos, no sentido da ligação que promovem entre os humanos e o mistério, resultantes do amálgama tenso e intenso de ritos de ancestralidade dos bantos centro- africanos, calundus, pajelanças, catimbós, encantarias, cabocladas, culto aos orixás iorubanos, arrebatamentos do cristianismo popular, espiritismos e afins."
"O corpo encantado é, portanto, aquele que dá um drible no corpo domesticado, adultizado e adulterado pela lógica produtiva do tempo do trabalho."
"Para a perspectiva aqui proposta, as umbandas não são filhas de origens datadas, mas de acúmulos de sabedorias encantadas diversas que dinamicamente se articulam em cultos multifacetados, plurais, abertos para alteridades e alterações e, ao mesmo tempo, profundamente tradicionais."
"As umbandas são, nesta perspectiva, muito mais o resultado de contatos diversos, circularidades culturais e entrecruzos que se codificam de múltiplas formas. Particularmente, sou partidário da autorreferência: umbanda é aquilo que vai se referenciar debaixo desse guarda- chuva, dentro de um ecossistema de sabenças encantadas – gosto de pensar em um complexo das macumbas – que bordam as nossas distintas maneiras de lidar com o mistério e as tecnologias de cura. De culto doméstico, ligado ao antepassado da família que eventualmente baixa para interagir com os seus, a culto edificado na estrutura hierárquica de um terreiro, o importante aqui é entender os sentidos produzidos pelos praticantes e o que eles nos revelam sobre o chão e o tempo."
"O que aconteceu em Jaguaripe não foi um fato isolado no Brasil colonial. Consta que as cerimônias dos nativos da terra baseadas em cantos, danças, bebedeiras de cauim, sucções de tabaco e transes místicos de evocação aos antepassados mortos foram chamadas a primeira vez de “santidades” por um assustado padre Manoel da Nóbrega, em 1549."
"Sem a natureza, as crianças, as mulheres e os homens não poderão viver. Sem as folhas das matas e florestas, não existe cura para as doenças do corpo e as tristezas da alma. Sem o canto, as folhas não se encantam e não nos ajudam."
"A pombagira é resultado do encontro entre a força vital do poder das ruas que se cruzam e a trajetória de encantadas ou espíritos de mulheres que viveram a rua de diversas maneiras, tiveram grandes amores e expressaram a energia vital através de uma sexualidade aflorada e livre."
"A pombagira, como diz um antigo ponto de macumba, é uma ventania que se encanta nos corpos."
"(...) é na cultura dos congos que as encruzilhadas, sobretudo em formato de cruz, adquirem com maior ênfase o papel de lugar por excelência das dinâmicas espirituais do tempo, da vida e da morte."
"Levando esse imbróglio para o campo da umbanda, teremos cada vez mais um debate que, dentre várias nuances, acaba se desdobrando nas disputas pelo imaginário do culto e nas criações de tradições que disputarão as versões sobre as suas origens. De um lado, teremos o crescimento de uma umbanda que se reivindicará como cristã e brasileira: a umbanda autorreferenciada como “branca”; a nosso ver um típico exemplo do discurso da mestiçagem como processo de inclusão subalterna inserida, ao mesmo tempo, na busca por legitimidade institucional em uma conjuntura bastante específica. Do outro, uma concepção de umbanda afro-brasileira, que buscará ressaltar a identidade afrodiaspórica do culto. O exemplo mais contundente desta linha é a corrente do omolokô, que tem como nome de destaque o Tata Tancredo da Silva Pinto. Vale ressaltar ainda que diversas outras linhas de umbanda trilharão caminhos cruzados entre as duas vertentes expostas."
"As perseguições às macumbas, umbandas, catimbós, candomblés, encantarias diversas, serão geralmente legitimadas a partir de sanções previstas contra as suas tecnologias de encanto, encaradas como curandeirismo e perturbação da ordem pública: tambores batendo, mugingas (a limpeza dos corpos com comidas, animais, folhas etc. como procedimento de cura), cantos, defumações, ebós variados... De certa forma, é como se a legislação refletisse dilemas que envolviam o próprio pensamento social brasileiro: somos mestiços, resolvemos os horrores da nossa formação, reconhecemo-nos como o resultado original do encontro das raças, valorizamos os elementos indígenas e negros na constituição de um “ser brasileiro”; ao mesmo tempo, consideramos que essa pertença afroindígena está hierarquicamente inserida abaixo do impacto civilizatório trazido pela tradição europeia."
"É sobretudo a partir da Era Vargas, portanto, que podemos entender a construção do discurso identitário que vê a umbanda como uma religião brasileira, em um contexto em que as lideranças do movimento umbandista constroem um processo que, para Renato Ortiz, rompe as fronteiras de um sincretismo espontâneo e promove certo sincretismo refletido. Tal fato é resultante da elaboração de uma costura mediada pelos intelectuais umbandistas entre as manifestações religiosas das culturas ameríndias, a influência da catequese jesuítica, os cultos de matriz africana, e a influência da doutrina kardecista."
"No final de 1999, o terreiro de candomblé Ilê Axé Abassá de Ogum, liderado pela yalorixá Gildásia dos Santos, conhecida como Mãe Gilda de Ogum, sofreu um ataque motivado por racismo religioso, em Salvador, Bahia.
O axé de Mãe Gilda foi invadido e depredado por fanáticos ligados à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Na ocasião, os fundamentalistas espancaram o marido da sacerdotisa. Dois meses depois, um jornal da mesma igreja publicou uma foto de Mãe Gilda com uma tarja no rosto e a manchete: “Macumbeiros charlatões lesam a vida e o bolso de clientes”. Ao ver a publicação, Mãe Gilda teve um ataque cardíaco fulminante e faleceu, no dia 21 de janeiro de 2000. Em homenagem à yalorixá, a data foi instituída como Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, em 2007, pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva."
"Ocorre no Brasil uma disputa escancarada pelo mercado da fé, diretamente vinculada ao aumento do número de fiéis de cada credo e com fortes repercussões na política institucional. Neste sentido, é recorrente que algumas instituições religiosas adotem como estratégia na disputa de mercado a destruição de outros laços de pertencimento, a partir de uma visão binária entre o bem e o mal."