Misery começa de um jeito muito confuso, porque a gente acorda junto com o protagonista. O Paul Sheldon não sabe onde está, mal consegue abrir os olhos e só sente uma dor absurda no corpo inteiro, principalmente nas pernas. A última coisa de que ele se lembra é de estar dirigindo seu Camaro durante uma nevasca depois de terminar um novo livro. Ele tinha bebido, perdeu o controle do carro e sofreu um acidente.
Quando desperta, vê uma mulher enorme, de rosto estranho e com um hálito terrível, dizendo que salvou sua vida. Ela é Annie Wilkes, uma ex-enfermeira que mora sozinha em uma fazenda isolada. Ela explica que encontrou o carro dele enterrado na neve, conseguiu tirá-lo de lá e levou para sua casa, onde está cuidando dele.
No começo, a gente até pensa: “ok, ela parece esquisita, mas salvou o cara”. Só que logo aparecem várias coisas estranhas. Paul percebe que ela não chamou uma ambulância, não avisou ninguém sobre o acidente e simplesmente decidiu mantê-lo preso em um quarto da casa. Além disso, ela controla tudo: os remédios, a comida, a água e até quando ele pode conversar.
As pernas dele ficaram completamente destruídas no acidente, então ele depende dela para absolutamente tudo. Annie dá muitos analgésicos para ele, principalmente Novril (no original, Novril é um remédio fictício parecido com um opioide), e Paul acaba ficando dependente. Aos poucos, ele percebe que a mulher tem mudanças de humor assustadoras: em um momento está doce e carinhosa; no outro, explode por qualquer motivo e parece perder completamente a noção da realidade.
Então vem a grande revelação: Annie é a “fã número 1” dele. Paul é um escritor famoso por causa da série de romances protagonizada por Misery Chastain, uma personagem que ele já estava cansado de escrever. Inclusive, antes do acidente, ele tinha terminado um livro diferente, mais sério, chamado Fast Cars, porque queria ser reconhecido como um escritor de verdade e não apenas como “o criador de Misery”.
Annie encontra esse manuscrito novo e pede para ler. Quando termina, ela simplesmente odeia o livro e o chama de “sujo”, porque tem palavrões e violência. Num ataque de raiva, ela joga o manuscrito na churrasqueira e queima tudo. Paul assiste, sem poder fazer nada, ao trabalho de meses virar cinzas.
Mas isso ainda não é o pior.
Annie também está lendo o último livro da série Misery, aquele que Paul escreveu antes do acidente. Quando chega ao final e descobre que a personagem morreu, ela entra em um surto gigantesco. Ela grita, quebra coisas, chama Paul de mentiroso e traidor, e desaparece por um tempo, deixando-o sozinho, sem comida, água ou remédios. Ele fica dias sofrendo, sem saber se ela vai voltar ou simplesmente deixá-lo morrer.
Quando Annie reaparece, ela faz uma exigência: Paul vai escrever um novo livro de Misery, trazendo a personagem de volta à vida. Não é um pedido; é uma ordem. Ela compra uma máquina de escrever antiga, pilhas de papel e obriga Paul a trabalhar todos os dias. Se ele não escrever, não ganha remédios. Se ela não gosta de um capítulo, ele precisa reescrever.
É aí que o livro se torna uma mistura de terror psicológico e uma reflexão sobre o próprio processo de escrita. Paul começa a imaginar maneiras de escapar enquanto escreve, e, curiosamente, ele mesmo acaba se envolvendo com a história que está criando. O retorno de Misery, que começou como uma obrigação, vai ficando cada vez melhor.
Enquanto isso, Paul começa a explorar o quarto sempre que Annie sai. Como está preso na cama, ele precisa se arrastar com muita dificuldade pela casa. Numa dessas escapadas, encontra um álbum de recortes de Annie e descobre quem ela realmente é. Antes de morar naquela fazenda, ela trabalhou em hospitais e maternidades. Diversos pacientes morreram misteriosamente sob seus cuidados, além de vários bebês. Ela chegou a ser julgada, mas nunca conseguiram provar nada. O álbum também revela que ela matou o próprio pai, um colega de trabalho e outras pessoas ao longo da vida. Paul percebe que está nas mãos de uma assassina em série.
A tensão só aumenta. Annie nota pequenos sinais de que Paul saiu do quarto e começa a testar se ele está obedecendo. Ela muda objetos de lugar de propósito para ver se ele mexeu neles. Quando descobre que ele andou pela casa, decide dar uma “lição” para que ele nunca mais tente fugir. Essa é uma das cenas mais famosas e perturbadoras do livro: ela coloca um bloco de madeira entre os tornozelos dele e, com um machado, corta um de seus pés. Depois, ainda corta o polegar de sua mão esquerda. Tudo isso é descrito de uma forma extremamente detalhada e cruel.
Mesmo mutilado, Paul não desiste. Ele sabe que, quando terminar o livro, Annie provavelmente vai matá-lo. Então ele continua escrevendo enquanto tenta pensar em um plano.
Do lado de fora, a polícia investiga o desaparecimento do escritor. Um dos policiais, desconfiado, vai até a casa de Annie. Paul ouve a conversa e percebe que talvez seja sua única chance. Ele faz barulho e tenta chamar atenção, mas Annie percebe. Quando o policial finalmente encontra Paul no quarto, Annie surge por trás e o mata de forma brutal. Depois, esconde o corpo.
A partir daí, Annie entra em paranoia. Ela sabe que a polícia vai voltar, então decide acelerar tudo. Paul precisa terminar o livro imediatamente. Quando a última página fica pronta, Annie diz que eles vão comemorar juntos. Ela fala sobre um pacto de suicídio: depois de ler o livro, os dois morrerão lado a lado, porque ninguém jamais poderá entender a ligação especial que existe entre eles.
Só que Paul já preparou seu plano final.
Enquanto Annie sai para buscar uma garrafa de champanhe, ele derrama um líquido inflamável nas páginas do manuscrito. Quando ela volta, ele coloca fogo no livro. Annie enlouquece ao ver a continuação de Misery sendo destruída. Ela avança sobre ele, e Paul aproveita para acertá-la na cabeça com a pesada máquina de escrever. Os dois entram em uma luta desesperada pelo quarto. Paul a golpeia várias vezes e, quando ela cai, enfia as páginas queimadas do manuscrito em sua boca, tentando sufocá-la.
Ele consegue escapar do quarto e se arrasta até a parte da frente da casa. Annie ainda tenta alcançá-lo, mas acaba caindo. Pouco depois, a polícia chega ao local e encontra Paul quase sem forças.
No fim, Annie morre por causa dos ferimentos na cabeça. Paul sobrevive, mas sai completamente traumatizado. Ele passa por uma longa recuperação e continua assombrado pela lembrança dela, às vezes até imaginando vê-la em lugares públicos. O livro que ele escreveu durante o cativeiro, o retorno de Misery, é publicado e vira um enorme sucesso, em parte pela qualidade da história e em parte pelo interesse do público em tudo o que ele passou.
O que mais me marcou em Misery é que não existe nada sobrenatural. Não tem fantasmas, monstros ou maldições. O terror vem de uma situação assustadoramente possível: um homem indefeso, preso em uma casa isolada, nas mãos de alguém completamente instável, que acredita que amor e posse são a mesma coisa. E o Stephen King faz a gente sentir essa prisão junto com o Paul do começo ao fim.