Ficha técnica
Sinopse
"A maior astúcia do Diabo é nos convencer de que ele não existe", escreveu o poeta francês Charles Baudelaire. Já a grande astúcia de Andrew Pyper, autor de O DEMONOLOGISTA (DarkSide® Books, 2015), é fazer até o mais cético dos leitores duvidar de suas certezas. E, se possível, evitar caminhos mal-iluminados.
O personagem que dá título ao best-seller internacional é David Ullman, renomado professor da Universidade de Columbia, especializado na figura literária do Diabo - principalmente na obra-prima de John Milton, Paraíso Perdido. Para David, o Anjo Caído é apenas um ser mitológico.
Ao aceitar um convite para testemunhar um suposto fenômeno sobrenatural em Veneza, David começa a ter motivos pessoais para mudar de opinião. O que seria apenas um boa desculpa para tirar férias na Itália com sua filha de 12 anos se transforma em uma jornada assustadora aos recantos mais sombrios da alma.
Enquanto corre contra o tempo, David precisa decifrar pistas escondidas no clássico Paraíso Perdido, e usar tudo o que aprendeu para enfrentar O Inominável e salvar sua filha do Inferno.
Especificações do produto
- Autor (a)Andrew Pyper
- Tradutor (a)Cláudia Guimarães
- GêneroLiteratura e Ficção
- EditoraDarkside Books
- Páginas320
- Ano2015
- Edição1ª
- IdiomaPortuguês
- ISBN9788566636703
- Tamanho7,07 MB
- Idade indicadaLivre
Resenhas no
Resenha com spoilers
O Demonologista: Um Grande "Era Para Ser"
O Demonologista não se enquadra no tipo de livro que costumo ler. Sou uma amante fervorosa de fantasia e ficção; no entanto, como eu e meu namorado temos a tradição de trocar livros no aniversário de namoro, e destrocá-los no ano seguinte, quando discutimos ambos, acabei me vendo obrigada a lê-lo.
Eu poderia escrever uma resenha positiva, destacando o quanto o livro me surpreendeu e quão filosófico ele é. Mas isso seria uma mentira baseada no que o autor gostaria que a obra fosse, não no que ela de fato entrega. Existem livros que são ambíguos por intenção, construídos para permitir múltiplas interpretações. E existem aqueles que se tornam ambíguos por falhas narrativas. Infelizmente, acredito que O Demonologista se enquadre no segundo caso.
Desde o início, somos apresentados a David, um protagonista que o autor parece não ter decidido como construir. Ele é um homem fraco? Corajoso? Um marido apaixonado? Um infiel emocionalmente envolvido com a melhor amiga? Pessoas são, sim, complexas e contraditórias, mas aqui não há complexidade, há incoerência. Em um momento, David é um coitado passivo; no outro, está prestes a agredir o suposto amante da esposa. Páginas são gastas detalhando sua relação íntima com a melhor amiga, enquanto sua esposa é progressivamente demonizada. Curiosamente, o livro sequer começa enfatizando seu amor pela filha, que deveria ser o eixo central da narrativa, focando primeiro no drama com as mulheres ao seu redor.
Não costumo ser tão dura com escolhas de linguagem, mas a forma como Andrew Pyper descreve suas personagens femininas é, sem exagero, nojenta. Mesmo a “Mulher Magra”, uma entidade demoníaca, é descrita inicialmente com uma carga de atração sexual, como se o protagonista fosse desejado por ela. Esse padrão se repete: se a mulher não é idosa ou criança, ela é ou demonizada (como a esposa de David) ou colocada em posição de desejo por ele (como O’Brien). A própria entidade, que deveria causar medo, acaba presa em um meio-termo estranho entre ameaça e erotização.
A narrativa falha repetidamente. Os acontecimentos são rápidos demais, convenientes demais e constantemente favorecem o protagonista. David, um professor universitário de teologia, age como alguém com recursos ilimitados: aluga carros com facilidade, se hospeda sem dificuldades e circula livremente por diversos espaços. Ele mente para entrar em hospitais e escolas, mas esses momentos nunca são realmente mostrados. Em vez disso, o texto apenas afirma que ele mentiu, evitando construir cenas e diálogos que sustentariam tais ações. É sempre mais fácil dizer do que mostrar.
Há, sim, algum potencial. Certas cenas são interessantes, e alguns conceitos (como o poder de nomear algo), poderiam render reflexões instigantes. Mas o livro parece um conjunto de capítulos remendados. David se desloca incessantemente, sempre em movimento, mas sem progresso real. A busca é constante, porém vazia.
Por isso, não consigo enxergar a suposta ambiguidade filosófica como algo intencional. Em nenhum momento consegui acreditar plenamente nos eventos narrados, não por complexidade, mas por excesso de conveniência. Tudo é fácil demais, encaixado demais. Nem mesmo os trechos sobre o passado de David têm força suficiente: soam mais como tentativas de preencher lacunas do que como partes orgânicas da história.
Quanto à escrita, há um ponto positivo: é simples e ágil. No entanto, essa simplicidade rapidamente se torna cansativa, resultando em uma narrativa superficial. Nota-se uma certa insegurança na construção textual, refletida na repetição desnecessária de ideias. Por exemplo:
“Eu tentei me matar ontem, digo, e isso sai assim, simplesmente, de maneira casual, como se eu contasse que acabei de fazer uma limpeza nos dentes.”
Sendo um narrador em primeira pessoa, portanto, inerentemente não confiável, não há necessidade de enfatizar tanto o estado mental do personagem. A própria fala já seria suficiente para provocar essa percepção no leitor.
Gostei das citações de outras obras, das artes e de alguns conceitos pontuais. Mas isso não sustenta o todo. Ficam apenas vislumbres de ideias que poderiam ter sido bem desenvolvidas, mas nunca são.
E, no fim, é isso que O Demonologista é: um grande “era para ser”. Uma proposta de reflexão que, por ser rápida e atropelada, termina sem deixar impacto. Restam apenas duas possibilidades, e nenhuma delas particularmente intrigante: David morreu ou sempre esteve louco.
Resenha com spoilers
Decepção
Competindo de forma acirrada com "The Outsider" para o prêmio de Pior Final de Todos os Tempos. Parece que nós últimos capítulos o Andrew Pyper não aguentava mais escrever e só queria acabar logo com a história. Sem sentido! Não é um final aberto, é um final inexistente. Odiei, não sei nem se posso dizer que perdi meu tempo lendo porque, antes de tudo ficar sem nexo, é um excelente livro. Frustração total.
Resenha com spoilers
Referências interessantes à Paraíso perdido
David Ulmann é professor universitário na Universidade de Columbia, Manhattan, sua especialização é na obra Paraíso Perdido, de John Milton. Um dia, ele recebe uma visita inusitada e com ela um convite misterioso de ir à Veneza e usar seu conhecimento em demonologia para ajudar em um caso especial. Chegando lá, ele vai se deparar com a face do verdadeiro mal e ainda correr o risco de perder sua preciosa filha.
Este não é um livro de terror comum, eu diria. Não entre nessa leitura esperando um enredo à la Casal Warren, com muitas cenas caricatas e ação do começo ao fim. Para minha surpresa, esse livro tem um lado bem mais filosófico e teológico.
Diferentemente de O exorcista, que não dá conclusões precisas sobre a verdadeira natureza dos acontecimentos - sobrenatural ou doença mental -, aqui Andrew Pyper faz sua escolha clara: o sobrenatural existe e demônios estão entre nós.
Este ser quer dominar o mundo humano, além de enfraquecer o poder do cristianismo, mas ele não precisa instalar o caos e a destruição da humanidade, sua arma de dominação é o conhecimento. Em determinado momento da história, o professor consegue uma prova concreta da real existência demoníaca. O plano do demônio é usar a credibilidade do pensamento acadêmico (o professor) para espalhar essa prova pelo mundo e, assim, provar sua existência e angariar seguidores para o seu lado - o lado do mal.
Mas, será mesmo tão mal assim? Segundo o demônio, Deus e Satã empatam quanto à possibilidade de maldade e o próprio John Milton enxergava isso e passou para uma das mais importantes obras literárias do mundo. Paraíso Perdido seria, portanto, na verdade uma grande ode ao Diabo.
Andrew Pyper usa referências do poema nessa história de forma brilhante, mas não só isso, a meu ver, esse livro é uma ótima releitura de duas passagens muito importantes da Bíblia: a tentação do Diabo à Jesus Cristo e o infortúnio de Jó. David sofre inúmeras tentações, inclusive a de espalhar o mal por um motivo egoísta, passa por diversos sofrimentos, mas nunca deixa de fazer o correto, até o fim ele escolhe a bondade e é recompensado por isso, assim como Jó e Cristo.
Há também a possibilidade de tudo ser uma alegoria para o processo de luto. Uma mente já tendenciosa à depressão com dificuldade de lidar com o suposto su1c1d10 da filha.
Essa leitura foi uma grande surpresa positiva para mim. Pela destreza das referências teológicas, pelas cenas de suspense bem construídas e, sobretudo, por ter como base o Paraíso Perdido. Se antes já queria ler a obra, agora essa vontade se solidificou muitíssimo.
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